Quando a gente se cobra demais: como perceber e aliviar a autocobrança
Quando a gente se cobra demais: como perceber e aliviar a autocobrança
Tem dias em que a gente faz um monte de coisas e, ainda assim, termina o dia com a sensação de que não fez o suficiente.
Trabalhou, resolveu problemas, cuidou da casa, respondeu mensagens, tentou cuidar de si, deu atenção a alguém… mas, quando finalmente para, vem aquele pensamento:
“Eu deveria ter feito mais.”
A autocobrança pode aparecer de maneiras tão discretas que nem sempre percebemos que estamos sendo duras demais conosco.
Às vezes ela vem disfarçada de responsabilidade. Outras vezes, de perfeccionismo. E, em alguns momentos, até de uma vontade sincera de melhorar.
Mas existe uma diferença entre querer evoluir e viver sentindo que nunca somos boas o bastante.
O que é autocobrança?
Autocobrança é aquela tendência de estabelecer para si mesma expectativas muito altas e sentir que precisa corresponder a elas o tempo todo.
Ela pode aparecer no trabalho, nos relacionamentos, na aparência, na maternidade, na vida financeira ou até na maneira como acreditamos que deveríamos estar nos sentindo.
O problema não é querer fazer melhor.
O problema começa quando qualquer resultado abaixo do ideal passa a parecer um fracasso pessoal.
E é aí que uma frase como “da próxima vez posso fazer diferente” pode se transformar em “eu nunca faço nada direito”.
Como saber se estou me cobrando demais?
Nem sempre a autocobrança parece uma cobrança.
Alguns sinais aparecem no cotidiano:
- dificuldade de comemorar pequenas conquistas;
- sensação constante de estar atrasada na vida;
- comparação frequente com outras mulheres;
- culpa quando descansa;
- dificuldade de aceitar erros;
- necessidade de fazer tudo perfeitamente;
- sensação de que poderia ter feito mais, mesmo depois de um dia cheio;
- pensamentos que ficam repetindo situações que já aconteceram.
E existe um sinal particularmente interessante:
quando você recebe um elogio, mas imediatamente pensa em tudo aquilo que ainda poderia melhorar.
É como se a mente tivesse mais facilidade para encontrar o que falta do que para reconhecer o que já existe.
Por que eu consigo reconhecer o esforço de outras pessoas, mas não o meu?
Talvez você já tenha percebido isso.
Uma amiga conta que está cansada e você imediatamente pensa:
“Ela está fazendo o que consegue. Precisa descansar.”
Mas quando é você quem está cansada, a conversa interna muda:
“Eu deveria estar dando conta.”
É curioso como podemos oferecer aos outros uma compreensão que não conseguimos oferecer a nós mesmas.
Talvez porque, quando olhamos para outra pessoa, enxergamos a história inteira.
Quando olhamos para nós, muitas vezes enxergamos apenas aquilo que faltou.
A autocobrança pode fazer a gente pensar demais?
Pode.
Quando alguma coisa não sai como esperávamos, a mente pode ficar tentando encontrar uma explicação, revisar conversas, imaginar o que poderíamos ter feito diferente e antecipar situações futuras.
É justamente aquele território do “e se eu tivesse...”, “será que...”, “por que eu fiz isso?” e “e se acontecer aquilo?”.
Se você se reconhece nisso, vale também conhecer nosso artigo “Por que eu penso demais?”, porque pensar muito nem sempre significa simplesmente ter uma mente acelerada. Às vezes, existe uma tentativa de controlar aquilo que não conseguimos controlar.
Descansar é realmente perder tempo?
Não.
Mas muita gente foi acostumada a enxergar descanso como prêmio por produtividade.
Primeiro eu termino tudo.
Depois eu descanso.
Só existe um pequeno problema nessa lógica: a lista nunca termina.
Sempre haverá uma roupa para guardar, uma mensagem para responder, uma tarefa para começar, um projeto para melhorar.
Se o descanso depender de tudo estar resolvido, provavelmente ele nunca chegará.
Por isso, cuidar de si também significa aprender a parar antes de estar completamente esgotada.
Nós já falamos sobre isso no artigo “Autocuidado sem complicação: rituais diários para cuidar de você”.
Link interno: inserir aqui o link do artigo Autocuidado sem complicação: rituais diários para cuidar de você.
Como diminuir a autocobrança no dia a dia?
Não é necessário transformar sua vida inteira para começar.
Às vezes, pequenas mudanças na maneira de conversar consigo mesma já fazem diferença.
Troque o “eu deveria” por “o que é possível agora?”
“Eu deveria estar fazendo exercício.”
“Eu deveria estar mais organizada.”
“Eu deveria ter respondido.”
“Eu deveria ter feito melhor.”
Experimente perguntar:
“O que é possível para mim hoje?”
A pergunta muda porque leva em consideração a realidade — e não uma versão imaginária de você que aparentemente consegue fazer tudo.
Aprenda a reconhecer o que você fez
Antes de pensar no que faltou, tente lembrar do que aconteceu.
Você trabalhou?
Resolveu aquele problema?
Teve uma conversa difícil?
Preparou uma refeição?
Tomou banho com calma?
Saiu de uma situação que estava fazendo mal?
Tudo isso conta.
Nem toda conquista precisa ser grandiosa para merecer reconhecimento.
Pare de usar outras pessoas como régua
A comparação costuma ser injusta porque colocamos nosso bastidor ao lado do palco de outra pessoa.
Você conhece suas dúvidas, seus atrasos, seus erros, seus medos e tudo aquilo que ninguém vê.
Da outra pessoa, muitas vezes conhece apenas o resultado.
Não são medidas equivalentes.
Permita-se fazer algumas coisas simplesmente bem
Nem tudo precisa ser excelente.
Algumas coisas podem ser apenas boas.
A casa pode estar razoavelmente organizada.
O trabalho pode estar bem feito sem estar perfeito.
Você pode escolher uma roupa porque gostou dela, e não porque ela produz a imagem perfeita.
Pode existir beleza no suficientemente bom.
E se eu estiver realmente precisando melhorar alguma coisa?
Essa talvez seja a parte mais importante.
Diminuir a autocobrança não significa abandonar a responsabilidade sobre a própria vida.
Podemos reconhecer:
“Eu poderia ter agido melhor.”
sem transformar isso em:
“Eu sou uma pessoa ruim.”
Podemos dizer:
“Preciso melhorar nisso.”
sem concluir:
“Eu nunca vou conseguir.”
Existe uma diferença enorme entre autocrítica saudável e crueldade consigo mesma.
A primeira ajuda a crescer.
A segunda apenas machuca.
Talvez você não esteja atrasada. Talvez esteja cansada.
Existe uma pressão silenciosa para que, em determinada idade, já tenhamos resolvido tudo.
Carreira.
Relacionamento.
Dinheiro.
Corpo.
Casa.
Família.
Propósito.
E quando olhamos ao redor parece que todo mundo está avançando enquanto nós ainda estamos tentando entender algumas coisas.
Mas a vida não é uma linha do tempo coletiva.
Cada pessoa carrega uma história que não aparece nas redes sociais, nas conversas rápidas ou nas fotografias bonitas.
Às vezes, o que parece falta de progresso é simplesmente uma pessoa tentando continuar depois de ter passado por muita coisa.
E talvez você não precise se cobrar tanto hoje.
Talvez precise apenas reconhecer:
“Eu estou fazendo o que consigo com aquilo que tenho neste momento.”
E, sinceramente?
Isso já é bastante.


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